Parceria com Capes e Universidade de Beihang pode resultar em projetos binacionais
Publicada em 24/08/2026
A participação da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) no Programa Brasil–China de Futuros Líderes em Inovação Científica e Tecnológica, uma parceria da Capes - Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e a Universidade de Beihang, poderá ultrapassar os resultados alcançados durante a missão realizada entre julho e agosto de 2026. Os contatos estabelecidos por dez pós-graduandos da Universidade e pela professora Rosy Ribeiro, vice-reitora, coordenadora da missão, com pesquisadores e instituições chinesas abrem perspectivas para novas parcerias de ensino, pesquisa e inovação.
Entre os possíveis desdobramentos estão a criação de projetos binacionais, coorientações de pesquisas, realização de disciplinas e seminários conjuntos, mobilidade acadêmica de curta duração, compartilhamento de protocolos e infraestrutura e recepção de pesquisadores chineses na UFSJ.
Para a vice-reitora, que é professora titular de Biologia Celular, coordenadora do Lapatex - Laboratório de Patologia Experimental pesquisadora e bolsista de Produtividade em Pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, o intercâmbio representou uma oportunidade de ampliar a inserção internacional da UFSJ e fortalecer sua rede de cooperação científica. “A experiência superou todas as expectativas. Tivemos contato com uma cultura científica extremamente dinâmica, conhecemos diferentes formas de organizar a pesquisa e estabelecemos conexões que certamente resultarão em novas oportunidades de colaboração entre nossas instituições”, afirmou.
Durante as visitas a laboratórios e as reuniões com pesquisadores chineses, Rosy Ribeiro ressalta que procurou identificar áreas de interesse comum e possíveis parceiros para docentes e grupos de pesquisa da UFSJ. A intenção é fazer com que os contatos estabelecidos durante a missão possam beneficiar diferentes setores da Universidade. “Procurei olhar para essa experiência também como gestora. Em cada visita a laboratórios e em cada reunião com pesquisadores, busquei identificar possíveis parceiros para nossos docentes. A internacionalização precisa ser institucional. Ela deve criar oportunidades para toda a universidade, e não apenas para um grupo específico”, ressaltou.
Formação científica em ambiente internacional
Mais do que apresentar novas estruturas e equipamentos de pesquisa, o programa inseriu os estudantes em equipes multidisciplinares e propôs desafios científicos concretos. Os projetos exigiram a aproximação entre diferentes linguagens e campos do conhecimento, como biologia e mecânica, oncologia e computação, materiais e resposta celular, comportamento e fisiologia, biotecnologia e sustentabilidade.
A experiência também contribuiu para o desenvolvimento de competências que ultrapassaram a formação técnica. Os pós-graduandos precisaram se adaptar a novas rotinas de laboratório, trabalhar em equipes multiculturais, negociar objetivos, cumprir prazos reduzidos e comunicar resultados para diferentes públicos. “Foi uma experiência extraordinária de crescimento. Em poucos dias, nossos estudantes estavam plenamente inseridos em equipes internacionais de pesquisa, discutindo ciência com segurança e apresentando seus resultados para uma audiência altamente qualificada. É um exercício de autonomia, maturidade científica e capacidade de adaptação que dificilmente seria reproduzido em outro contexto”, destacou Rosy Ribeiro.
Pesquisas e prêmio como destaque
A doutoranda Marina Andrade Rocha, orientada pela professora Mingdi Xu, trabalhou com a integração de parâmetros fisiológicos e comportamentais para avaliação do estresse, articulando modelos com zebrafish e medidas realizadas em seres humanos. Na cerimônia de encerramento, a estudante recebeu o certificado de destaque “Best camper of this programme”.
Gabriel Bernardo de Magalhães Santos realizou um estudo experimental de revestimentos antigelo aplicados a superfícies metálicas e cerâmicas. O trabalho incluiu preparação e avaliação de corpos de prova submetidos a líquidos, sólidos e baixas temperaturas.
Edilene Santos Alves de Melo participou de uma formação em modelagem biomecânica voltada ao planejamento da inserção de agulhas em tecidos. Orientada pela professora Li Murong e pela pós-graduanda Jia Wanjing, a estudante utilizou o software MATLAB e o Método dos Elementos Finitos para simular forças, deformações e trajetórias relacionadas a procedimentos minimamente invasivos.
Maria Eduarda Jeunon de Oliveira, sob orientação do pesquisador Qianchun Wang, desenvolveu atividades de modelagem computacional multiescala da hipóxia tumoral e do crescimento de tumores sólidos. O projeto utilizou a linguagem Python e a plataforma PhysiCell para integrar fatores como difusão de oxigênio, interações mecânicas entre células e alterações provocadas pela hipóxia.
Martinelle Ferreira da Rocha Taranto investigou a resposta de osteoblastos a diferentes ângulos dos poros de scaffolds — estruturas tridimensionais utilizadas como suporte para o crescimento celular. Orientado pela pesquisadora Geng Xuezheng, o projeto envolveu desenho de modelo tridimensional, impressão 3D e preparação das estruturas para análise da relação entre a geometria do biomaterial e a resposta celular.
Jicaury Roberta Pereira da Silva realizou a caracterização biomecânica da membrana sinovial por meio de ensaios de tração uniaxial. O estudo comparou regiões superiores e laterais da membrana e reuniu atividades de dissecação, preparação de amostras, ensaios mecânicos e análise de curvas de tensão e deformação. O trabalho teve a participação da professora Rosy Ribeiro e a orientação dos professores Xuesong Zhang e Huiwen Huang.
Também integraram a missão Eduardo Henrique de Paula Ribeiro e Davi Vital Moura dos Reis, que participaram de atividades relacionadas à bioeconomia, aos bioprocessos, à sustentabilidade, à economia circular e aos materiais inteligentes. Os trabalhos permitiram discutir possibilidades de aproveitamento de resíduos e aplicação de conceitos de engenharia e biotecnologia em processos industriais.
Lívia Ramos Santiago teve contato com pesquisas em inteligência artificial aplicada à saúde, nanomedicina, engenharia de tecidos, biomateriais e manufatura aditiva, sob supervisão do pesquisador Yuchao Chen.
Yan Lobo participou de atividades experimentais e demonstrações em tecnologias biomédicas, incluindo inteligência artificial aplicada ao diagnóstico, dispositivos de eletroacupuntura, microbiomas em microgravidade e reabilitação robótica.
Visitas aproximam pesquisa, inovação e aplicação
As visitas técnicas permitiram que os estudantes acompanhassem diferentes etapas do percurso entre a produção do conhecimento e sua aplicação na sociedade. Na empresa Dahua Technology, a delegação conheceu soluções de inteligência artificial, Internet das Coisas e monitoramento inteligente.
Na Hangzhou Dianzi University, os participantes tiveram contato com laboratórios e estruturas dedicadas à engenharia, manufatura de precisão, educação e empreendedorismo. A visita à Shining 3D apresentou aplicações de digitalização e impressão tridimensional nos setores industrial e de saúde.
A programação realizada em Wenzhou acrescentou uma dimensão biomédica e translacional à experiência. A delegação visitou a Wenzhou Medical University, o complexo de inovação Eye Valley e unidades hospitalares, além de participar de atividades relacionadas à Medicina Tradicional Chinesa.
Nessas instituições, os pós-graduandos acompanharam aplicações de inteligência artificial em diagnósticos e na organização dos fluxos hospitalares, além de trabalhos em biomecânica ocular, genética, processamento de imagens e análises clínicas. A programação demonstrou como assistência à saúde, ensino, pesquisa e inovação tecnológica podem ser desenvolvidos de maneira integrada.
Perspectivas
A professora Rosy Ribeiro destaca que o retorno ao Brasil não encerrou a experiência. Nas semanas seguintes à missão, os contatos iniciados na China já tiveram continuidade, com conversas entre pesquisadores, discussão de trabalhos conjuntos e identificação de novas possibilidades de cooperação. “A viagem termina, mas as relações que construímos podem permanecer por muitos anos. Agora é o momento de manter esses contatos vivos e transformar as conversas que tivemos em projetos, publicações, intercâmbios e oportunidades para nossos estudantes e pesquisadores”, afirmou.
A expectativa é que essas aproximações também abram caminhos para que pesquisadores chineses conheçam a UFSJ e para que novos estudantes tenham oportunidades semelhantes de formação internacional. “É claro que, para viabilizar tudo isso, dependemos de recursos financeiros, financiamentos, dentre outros incentivos que terão que ser buscados. Mais do que levar dez pós-graduandos à China, a missão mostrou que encontros relativamente curtos podem aproximar grupos de pesquisa que, até então, estavam separados por milhares de quilômetros. Se essas conexões se transformarem em parcerias duradouras, a principal herança da missão não estará apenas no que o grupo trouxe da China, mas nas pontes que continuará construindo depois dela”, finalizou Rosy.
por Luciene Tófoli, assessora de Relações Institucionais e Corporativas