Projeto de extensão quer formar leitores críticos para enfrentar vulnerabilidade social

O programa de extensão “A formação do leitor crítico no enfrentamento da vulnerabilidade social de crianças e jovens do Projeto Vida Nova” da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) promoveu, no dia 8 de junho, mais uma atividade no bairro Senhor dos Montes, em São João. Naquela data aconteceu um círculo de leitura crítica, cujo tema abordado foi o próprio bairro onde moram as crianças do projeto, inclusive com análise de letra de música que ajudou a refletir sobre o espaço. Foram explorados os sentidos das palavras na música e o significado de palavras desconhecidas.

Iniciado em março deste ano, o programa atua com aproximadamente 30 crianças e jovens, divididos em três diferentes grupos, organizados por faixa etária. É realizado semanalmente, com cada grupo, um encontro nomeado “Círculo de leitura crítica”. A proposta dessa oficina é fomentar a criticidade e a reflexão acerca das condições de vida nos bairros. Para isso, perguntas são levantadas para gerar discussões iniciais, como “O que é um bairro?, Como é o seu bairro? Todos os bairros são iguais? Por quê? O que faz seu bairro diferente do bairro dos seus colegas? Quais os lados positivos e negativos de se viver em seu bairro?

Após as atividades, foram confeccionados cartazes, nos quais as crianças escreveram ou desenharam o que percebiam em seus bairros a partir de duas diretrizes: o que as incomodavam e o que as alegravam. A coordenadora do projeto, professora Bruna Sola da Silva Ramos, explica que algumas crianças mencionaram como problemas o lixo, a fumaça vinda de queimadas, a água parada, o calçamento das ruas e as drogas. "Já a convivência com os vizinhos, as flores, os animais e os amigos são as qualidades que percebem no bairro”, completa. Dando sequência à atividade, todos esses elementos serão problematizados e explorados criticamente por meio da leitura.

Resultados

O retorno das crianças para o projeto tem se mostrado de uma forma positiva, podendo ser identificada tanto a assiduidade das crianças nos círculos de leitura quanto no envolvimento das mesmas no trabalho que tem sido realizado. É o que pensa Bruna, para quem “o projeto tem possibilitado às crianças e jovens questionarem, refletirem coletivamente acerca de temáticas que dizem respeito à realidade que eles vivenciam". Considerando as características de um círculo de leitura, a professora acredita que ele se constitui como um espaço de construção coletiva do conhecimento, de análise da realidade, de confronto e troca de experiências de modo a contribuir para o posicionamento crítico, consciente e responsivo das crianças e jovens, por meio do fortalecimento da leitura crítica da palavra e do mundo.

Bruna ressalta que as atividades também proporcionam, aos educadores envolvidos no projeto, "a vivência de uma práxis pedagógica reflexiva, que visa à emancipação de sujeitos de seus processos de opressão, contribuindo de forma significativa para a formação docente”.

Para este trabalho alguns gêneros se destacam: poesia, conto de fadas, crônica, conto, quadrinhos, tirinhas, romance, jornais; cada um com seus propósitos, funções e intencionalidades muito próprias. “O que temos é uma dinâmica que permite não apenas a apropriação de conhecimentos teóricos, mas, também, a construção de novos sentidos oportunizados pela reflexão individual e coletiva", comenta a coordenadora.

De acordo com o bolsista Lucas Rocha, estudante do terceiro período do curso de Pedagogia, o trabalho desenvolvido “está sendo muito legal para mim, pois trabalhamos com as crianças em uma perspectiva de pensar a leitura de uma forma crítica, que possa empoderá-las sobre a realidade que elas vivenciam. Muitas vezes, a gente tem percebido a realidade de uma vulnerabilidade social e de violência e, a partir desse movimento de leitura crítica, elas buscam se empoderar para, então, pensarmos junto formas de intervir e transformar essa realidade”. Lucas explica que “a gente mais do que ensina; aprende. É a premissa freiriana de dodiscência, de que ninguém educa ninguém, que ninguém se educa sozinho. As pessoas se educam mediatizadas pelo mundo.”

Mais atividades

Além do círculo de leitura, está acontecendo a organização e implementação da Biblioteca do Projeto Vida Nova. Para isso, são realizadas campanhas de arrecadação de livros, a fim de possibilitar, às crianças e jovens, a ampliação do seu universo leitor.

O projeto também pretende explorar outros ambientes de aprendizagem, focalizando a cidade como um território educador, além do próprio Projeto Vida Nova. Já foi realizada uma visita ao Planetário da UFSJ no Dom Bosco, por meio da qual as crianças conheceram o campus e um pouco mais sobre a temática dos planetas nos círculos que estavam sendo trabalhados à época. Outras visitas e atividades estão sendo planejadas, como a museus, cinema e um passeio de trem até a cidade de Tiradentes.

Os integrantes têm participado de importantes eventos no país, como o V Encontro de Cátedras e Grupos de Estudos Paulo Freire, em Recife, em maio. Na oportunidade, debateram a proposta do projeto de extensão com outros pesquisadores freirianos de diferentes regiões do país. Também está prevista a participação no IV Seminário Internacional Diálogos com Paulo Freire, na cidade de Natal (RN), em agosto. Lucas Rocha pretende apresentar um relato de experiência no qual analisa os diários de campo por ele produzidos a partir dos círculos de leitura realizados com as crianças e jovens.

O projeto

“A formação do leitor crítico no enfrentamento da vulnerabilidade social de crianças e jovens do Projeto Vida Nova” fundamenta-se nos estudos de Paulo Freire e busca oferecer oportunidade de ampliação da leitura crítica da palavra e do mundo, a partir do desenvolvimento de círculos de leitura que oportunizam o contato dialógico-reflexivo com textos de diferentes gêneros. A ideia é que o fomento à leitura crítica seja elemento conscientizador e impulsionador de transformações em sua realidade.

O público-alvo são crianças e adolescentes de seis a 17 anos atendidos pelo Projeto Vida Nova e caracterizados em situação de vulnerabilidade social. O objetivo é a possibilidade de construir uma forma outra de ler a palavra e o mundo, vivenciando a leitura em movimentos de reflexão coletiva, de colaboração e diálogo e, por meio deles, produzir sentidos outros, trocar saberes, despertar e oportunizar o pensamento crítico tão necessário para o enfrentamento da própria realidade em que vivem.

O projeto é realizado e acompanhado pelo Grupo de Estudos Críticos do Discurso Pedagógico (GECDiP), certificado pelo CNPq e integrado ao Programa de Pós-Graduação em Educação da UFSJ. A equipe é formada pela coordenadora, professora Bruna Sola; a vice-coordenadora e técnica administrativa Magda Aparecida Lombardi Ferreira; o bolsista de extensão da Fapemig e estudante do terceiro período do curso de Pedagogia, Lucas Rocha; e os voluntários Luciana Mendes (terceiro período), Laryssa Carvalho (terceiro período) e Gabrielle Carvalho (quinto período), todas do curso de Pedagogia, e André José dos Santos, graduado em Filosofia e Pedagogia pela UFSJ.

Vida Nova

O Projeto Vida Nova é uma associação civil de São João del-Rei, cujos membros, inspirados por uma necessária amorosidade ao humano, oferecem apoio escolar e alimentar, vivências artísticas e culturais, orientação e formação profissional e, sobretudo, acolhimento e respeito a grupos de crianças e jovens são-joanenses considerados em situação de vulnerabilidade social. os assistidos participam diariamente das atividades que são oferecidas no contraturno escolar, tais como musicalização, informática, reforço escolar e círculos de leitura, recebem alimentação e vivenciam diferentes possibilidades de formação. 

Todas as sextas-feiras, o site de notícias da UFSJ traz o Comunica Extensão, com novidades sobre as ações extensionistas da nossa Universidade. Acompanhe!


Publicada em 29/06/2017
Fonte: ASCOM

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