Dia 8 da Mulher

E cá estamos nós de novo. Celebrando o centésimo sétimo ano da instituição do 8 de março como o Dia Internacional da Mulher. A data nasceu como homenagem a todo um passado de lutas e reivindicações, muitas ainda insolúveis na chamada contemporaneidade deste estranho século XXI. Com o passar dos anos, e uma certa interferência da publicidade, a data sofreu intensa glamourização, em nível semelhante ao raio gourmetizador lançado sobre as outroras singelas áreas de churrasco dos prédios que habitávamos na nossa quase velha infância.

A tônica das celebrações neste 8 de março de 2017 prescindirá de rosas e flores. Vestiremos todas as cores; o negro – de escudos, armaduras e âncoras desgastadas pelo uso – sempre presente, simbolizando o árduo que há e o que ainda virá. Cabras e bodes buscando a mesma saída do cercado. Insônias, olheiras e medos compartilhados meio a meio, sem a impaciência prato-feito de que estamos exagerando.

Mais respeito de todos e todas à nossa intuição, da qual nos vem o ímpeto da indignação contra as barbáries cotidianas: 3 em cada 5 mulheres jovens sofrendo violência, geralmente dos próprios parceiros, que geralmente continuam em liberdade; 33 estupradores violentando uma menina que “se dava com marginais”, também agredida pelo delegado que em tese deveria oferecer proteção legal a ela; 69% de diferença salarial entre postos de trabalho e escolaridade semelhantes; deboche contra as raras mulheres na política, num espectro que vai da beleza à feiura, da emasculação à fragilidade, passando pelo nonsense de não merecer ser estuprada, apesar de ser mulher.

Vamos empreender junt@s a utopia delirante da igualdade, num raio de autorreflexão crítica que alcance os recônditos de nossos preconceitos, até iluminar saídas, mesmo que por túneis tortuosos, escavados profundamente em nossa própria humanidade. Aceitemos o feminismo não como um humanismo, mas como a luta política que nos trouxe as conquistas de que hoje desfrutamos, e que não foram gratuitas, e nem são perenes. Os direitos estabelecidos, e as imperfeições decorrentes das oscilações do jogo da vida, trazem a reboque de si uma história que não pode ser desdenhada. Por isso: vote! Por isso: chega de fiu-fiu! Por isso: não compactue com a violência! Por isso: nunca menospreze uma luta que não é sua! Por isso: entenda antes de temer. Por isso, viva a radicalidade da poesia, como em Recatadíssima, de Sarah Rodrigues: “não podem me por / um ponto final / se quero uma existência / em reticências.”


Publicada em 08/03/2017
Fonte: ASCOM

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